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FRAME emoldura e revela talentos

  • 24 de jul.
  • 8 min de leitura

Mostra de Narrativas Visuais e Concurso de Desenhos Afro aliaram programações


 

Maria Moraes

Nathalia Menezes

Pedro Bezerra

Shellry Barbosa


As cores vibrantes que saltavam da vitrine chamavam a atenção de quem passava pelo Tocantins Shopping entre os dias 10 e 18 de abril de 2026. A movimentação curiosa do público era provocada pela exposição FRAME - Narrativas Visuais, promovida pela Inovador Talvez Filmes, que reuniu pinturas, registros fotográficos, ilustrações e quadrinhos de artistas locais e de diferentes partes do país, além de oficinas criativas gratuitas de fanzine, JHQ (Jornalismo em Quadrinhos) e fotografia.


O evento, que ocupou um espaço próprio no primeiro piso do shopping, também sediou ao lado, na entrada principal, a 16ª edição do já tradicional Concurso de Desenhos Afro, organizado pela professora e responsável pela Coordenação da Educação da Igualdade Racial de Imperatriz (Ceiri), Eró Cunha, que trouxe produções de estudantes de várias idades e até de outras cidades da região.


Jordânia Aguiar, arquiteta da exposição, o organizador João Luciano e a professora Eró Cunha durante cerimônia de abertura da FRAME. (foto: Nathalia Monteiro)
Jordânia Aguiar, arquiteta da exposição, o organizador João Luciano e a professora Eró Cunha durante cerimônia de abertura da FRAME. (foto: Nathalia Monteiro)

Idealizada pelo produtor João Luciano, a FRAME nasceu a partir de um edital da Lei Paulo Gustavo focado em festivais e mostras. Embora sua área de atuação seja o cinema, João quis acolher outras linguagens visuais para incentivar e celebrar os talentos de Imperatriz. "Eu, como produtor, me sinto motivado a isso, porque vocês sabem que Imperatriz precisa de uma movimentada nessa cena artístico-cultural", afirmou o organizador.


Para os artistas participantes, a mostra proporcionou a alegria do reconhecimento e estímulo à produção. Pedro Henrique, professor de artes e um dos selecionados, destaca que o evento é um incentivo necessário à cultura local. Já a estudante de Biologia, Nycole Lima, encontrou uma forma de unir arte e estudos em sua tela intitulada "Luxo Reciclado". Ela utilizou materiais como lacres de latinhas e retalhos para compor a obra, que agregou a mensagem "A arte veste o que o mundo descarta". "Eu tentei de todas as formas terminar a tela que estava quase concluída e consegui enviar. Fiquei muito feliz também de ver meu nome na seleção", conta, sobre os bastidores da produção.


Estudante de Biologia, Nycole Lima, apresenta sua tela com referências à sustentabilidade. (foto: Nathalia Monteiro)
Estudante de Biologia, Nycole Lima, apresenta sua tela com referências à sustentabilidade. (foto: Nathalia Monteiro)

A FRAME também funcionou como uma vitrine para artistas de municípios vizinhos. Impacto que fica claro no relato da estudante Giovana Araújo. “Eu entrei aqui e encontrei a foto de uma pessoa muito conhecida minha. Ele tá representando nossa cidade e também os barqueiros lá de Ribamar Fiquene”, celebrou a jovem.


A diversidade da mostra não se limitou à região Tocantina. Entre os expositores nacionais, destaca-se a ilustradora carioca Morphonia, que participou de todo o processo de forma digital. Com inspirações no estilo punk e em revistas como a Garo, que publicava antologias de mangá, a artista entrou na exposição com o quadrinho “As Delinquentes”, sobre uma gangue de estudantes que luta para dominar o terraço do prédio da escola. “Eu mesma, na idade delas, gostava de pensar que era punk. Mas tinha medo de receber uma simples advertência”, reflete.


Página dos quadrinhos produzidos pela ilustradora carioca Morphonia. (foto: reprodução acervo Morphonia)
Página dos quadrinhos produzidos pela ilustradora carioca Morphonia. (foto: reprodução acervo Morphonia)

A escolha do local foi um ponto bastante elogiado pelos visitantes. Para a engenheira civil Luisa Lima, o fato de a mostra ter sido sediada por um Shopping Center é interessante. “Acaba quebrando essa barreira um pouco elitista da arte por estar no shopping. Então acho que as pessoas que geralmente não entrariam e não procurariam por essa arte se interessam mais e acabam entrando.” O advogado Paulo Amaral também ressaltou a diversidade estética encontrada no espaço, destacando seu interesse específico por fotografias, ilustrações e quadrinhos.


A professora e escritora Tereza Bom-Fim concorda com Luisa. Ela celebrou a escolha do local da mostra ser no “coração da cidade”, e defendeu a facilitação do acesso à arte. Porém, lamentou a ausência de mais visitantes e a falta de incentivo. “Isso aqui é arte, é fruição, é estética, é vivência, é pensamento, é movimento interior que se faz aqui dentro da gente, que é uma necessidade. Não é terapia, mas é terapêutico”.


Oficinas


O evento ofereceu ainda, oficinas gratuitas durante quatro dias no espaço Coworking, localizado no subsolo do Tocantins Shopping, como as de fanzine, ministrada pela professora do curso de Jornalismo da Universidade Federal do Maranhão (UFMA), Yara Medeiros, Jornalismo em Quadrinhos, pela jornalista Lorrane dos Santos e Fotografia, pelo jornalista e fotógrafo Daniel Sena.


Entre as paredes laranja e branco da pequena sala, as oficinas fluíram como esperado. O interesse dos alunos, tanto em aprender como em produzir as chamadas JHQ’s, chamou a atenção de Lorrane. Nas aulas de fotografia, Daniel celebrou a participação e a união da turma, mesmo tendo idades variadas entre si. “Eu felizão lá, falando e eles pareciam felizes em estar recebendo”.


Houve também desafios: a duração curta da oficina foi um ponto crucial para a professora Yara durante o preparo da aula. A escolha do tema, produção do conteúdo e montagem das páginas tinha que caber em um espaço de tempo de apenas duas horas e meia. Mas no fim da atividade, com um zine de 16 páginas em mãos, ficou claro para Yara a natureza democrática da colagem. “É um formato que faz com que a gente consiga se expressar com facilidade, né? É realmente essa filosofia do ‘faça você mesmo’.”


O estudante Kenzo Araújo, que participou das oficinas de zine e fotografia, relata com felicidade que, apesar de inicialmente ter receios de não se sair bem nas aulas, conseguiu pegar o jeito com a explicação dos professores. “Cada coisa que eu aprendi eu guardei muito de coração, mesmo”. A experiência chegou a despertar um desejo artístico em Kenzo. “Se tiver outra edição, quem sabe pode ter uma arte minha sendo exposta”, conta, esperançoso.


Yasmin da Silva, hoje professora, participou também em 2014 das primeiras oficinas para criação do Zine Sibita, produto do curso de jornalismo da UFMA, e agora toma a oportunidade para retornar mais uma vez ao mundo das colagens. Já o estudante Heitor Vieira de 17 anos, ingressou no universo jornalístico por meio das aulas de JHQ. “Foi divertido conhecer uma coisa nova, fazer algo, experimentar.”, relata Heitor.


Estudantes participam da etapa prática da oficina de Jornalismo em Quadrinhos. (foto: Pedro Bezerra)
Estudantes participam da etapa prática da oficina de Jornalismo em Quadrinhos. (foto: Pedro Bezerra)

Entre fotos em grupo das turmas e confraternizações com direito a lanche após cada dia de oficina, o sentimento que tomou conta dos alunos é de gratidão e euforia, especialmente ao verem seu trabalho concreto produzido e apresentado ao final de cada aula. Os participantes levaram consigo um certificado e, no caso dos zines, também uma cópia impressa do trabalho que a produção distribuiu alguns dias depois. Kenzo, após o final do período, apontou: “É muito raro ter esses eventos assim em Imperatriz. Eu, inclusive, nunca vi outros assim. E foi bem enriquecedor.” Um dos sentimentos que fica para ele é uma sede de mais experiências como essa.


Desenhos afro


Galeria suspensa exibe parte das produções do Concurso de Desenhos Afro. (foto: Pedro Bezerra)
Galeria suspensa exibe parte das produções do Concurso de Desenhos Afro. (foto: Pedro Bezerra)

Em paralelo à exposição e às oficinas, a FRAME foi parceira da 16ª edição do Concurso de Desenhos Afro, que também aconteceu no Tocantins Shopping nos dias 10 a 18 de abril. Organizado pela professora e atriz Eró Cunha, o projeto é uma iniciativa da Unidade Regional de Educação de Imperatriz (Urei) por meio da Coordenação de Educação da Igualdade Racial (Ceiri).


A mostra representa uma ferramenta viva de aplicação da Lei 10.639, que tornou obrigatório o ensino de história e cultura afro-brasileira e africana nas escolas do Brasil. Mais do que uma competição, o concurso promove o estímulo a uma educação voltada para as relações étnico-raciais e o combate ao racismo a partir do olhar artístico.


O concurso-exposição contou com 128 desenhos de alunos dos ensinos fundamental, médio e estudantes PCD (Pessoas com Deficiência). O público que podia votar em um desenho de cada categoria. Segundo Eró, o objetivo não era medir quem possui a melhor técnica, mas sim celebrar as narrativas dos estudantes. "Trabalhar com as pinturas e os desenhos vem nessa perspectiva de descobrir como são essas vivências e olhares para a vida dentro dos seus espaços escolares e comunidades", explicou a organizadora. O festival, que já possui 16 anos de história e teve uma pausa durante a pandemia da Covid-19, atraiu caravanas de estudantes de diversas cidades da Região Tocantina.


Organizadora Eró Cunha ao lado do retrato desenvolvido por um dos alunos do projeto. (foto: Nathalia Monteiro)
Organizadora Eró Cunha ao lado do retrato desenvolvido por um dos alunos do projeto. (foto: Nathalia Monteiro)

Uma dessas caravanas veio de Ribamar Fiquene (MA), de onde alunos, professores e familiares da Escola Manoel Bezerra de Oliveira viajaram para prestigiar dois estudantes da cidade selecionados para o concurso. Entre eles estava Lucas Matheus Araújo Damião, que agarrou a oportunidade mesmo com o tempo curto. "Eles passaram [na escola] um dia antes [do prazo] de entregar e foi meio corrido, mas deu tudo certo. Eu tive que fazer na escola, mas eu gostei bastante", relatou o jovem, que desenha desde a infância.


Para Aline Assunção, mãe de Lucas, ver o filho em uma exposição pública foi motivo de imenso orgulho. Ela conta que ele sempre desenhou, mas nunca havia tido a chance de expor suas obras. Quando a oportunidade surgiu, o incentivo materno foi o empurrão que faltava. "Eu digo: 'Moço, você tem tanto potencial'. Incentivei ele e aí a gente está aqui", celebrou Aline, que fez questão de acompanhar a turma na viagem.


Sorriso de Lucas Araújo revela satisfação de integrar o concurso, representando Ribamar Fiquene (MA). (foto: Nathalia Monteiro)
Sorriso de Lucas Araújo revela satisfação de integrar o concurso, representando Ribamar Fiquene (MA). (foto: Nathalia Monteiro)

A recepção do público foi um dos marcos desta edição. Ao todo, foram apurados quase oito mil votos durante os dias de exposição no shopping, refletindo o engajamento da comunidade com as obras. A viabilização dessa estrutura foi possível graças à rede de apoio que envolveu a Secretaria Municipal de Educação, lojistas do Tocantins Shopping e a parceria direta com a produtora Inovador Talvez.


Além de ceder a estrutura e a logística da exposição, a produtora também garantiu a premiação para os primeiros lugares da categoria Ensino Médio e aos estudantes com deficiência. Neste ano, foi estabelecido um marco histórico. Se nas edições anteriores a premiação contemplava até o quarto lugar, em 2026 o reconhecimento foi estendido até o sétimo na categoria de Ensino Médio.


Para a professora Macarena Del Pilar Carvajal González, nascida no Chile e vivendo no Maranhão há 27 anos, a mostra é como um respiro em um cenário cada vez mais dominado por recursos tecnológicos. Ela ressalta que, em tempos de inteligência artificial e excesso de estímulos audiovisuais, as expressões artísticas feitas à mão preservam uma força única. “O desenho sempre vai encantar. É muito bonito, mas é orgânico também. Você vê que representa o desenhista, de onde ele vem, a sua realidade”, pontuou a educadora, que soube do evento no seu trabalho no Instituto Estadual de Educação, Ciência e Tecnologia do Maranhão (IEMA).


A temática Afro foi destacada por Macarena como uma ferramenta necessária para confrontar o racismo estrutural e a intolerância religiosa presentes na região. Como "cidadã do mundo" que vive em Imperatriz há pouco mais de um ano, ela observa que o preconceito muitas vezes se mascara, mas permanece de forma velada. “É necessário preservar a identidade, as raízes, e incentivar a cultura com as crianças, que elas se expressem ali e mostrem a sua própria realidade através das suas mãozinhas”, defendeu.


O encerramento oficial do concurso ocorreu no dia 22 de abril, em uma cerimônia que reuniu parte da comunidade escolar na praça de alimentação do Shopping para premiar os destaques do concurso. A premiação foi dividida em quatro categorias principais, contemplando cinco vencedores no Ensino Fundamental I, seis no Ensino Fundamental II e  sete estudantes do Ensino Médio. Houve, ainda, cinco premiações na categoria de estudantes com deficiência, reforçando o compromisso do concurso com a diversidade e a inclusão.


Vista aérea da estrutura de barrotes que abrigou o Concurso de Desenhos Afro, no shopping Tocantins. (foto: José Jorge)
Vista aérea da estrutura de barrotes que abrigou o Concurso de Desenhos Afro, no shopping Tocantins. (foto: José Jorge)

O fim do evento deixou uma sensação de dever cumprido e aprendizado para João Luciano. A repercussão da exposição excedeu as expectativas, tanto pelo alcance midiático quanto pelo interesse dos artistas e do público. “Esse contato direto que uma galeria proporciona nos fez perceber o quanto Imperatriz estava desejosa de eventos como esse, como esses tipos de projeto têm uma boa recepção na cidade”.


Embora tenha surgido o convite para estender a duração da exposição, o projeto encerrou sua primeira edição deixando o público na expectativa para os próximos capítulos. Para João Luciano, o evento foi uma semente que agora começa a germinar na cena cultural da cidade. O organizador já planeja novas formas de captar recursos para garantir que a FRAME continue estimulando a arte na região Tocantina. Depois de nove dias ocupando os corredores do Tocantins Shopping com cores, histórias e diferentes formas de expressão, a mostra deixou em Imperatriz a sensação de que há muitas outras narrativas na cidade esperando para serem emolduradas.

 
 
 

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2022 - Zine Sibita. Revista Cultural dos Estudantes de Jornalismo - UFMA - Imperatriz.

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