Cine Timbira marcou geração e acompanhou mudanças
- 3 de ago.
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Cinema encarou dificuldades e deixou lembranças no público entre 1996 e 2011
Pedro Bezerra

Em 1995, após anos de declínio, foi fechado o último cinema de rua de Imperatriz – MA, o Cine Marabá. Sem restar nenhum ambiente na cidade para assistir às telonas, a população teve que esperar até o dia 8 de outubro de 1996, por uma novidade: o Cine Timbira. Possuindo uma sala de exibição e 128 cadeiras, o lugar supriu rapidamente o vazio cinematográfico deixado na região, porém dessa vez dentro do conforto de um shopping center, o Timbira Shopping, inaugurado na mesma data. Mudando o nome para Cine Blue em 2008 por questões administrativas e fechando as portas definitivamente em 2011, o espaço entrou para história imperatrizense como um dos últimos cinemas da era analógica.
Idealizado pelo empresário Hermenegildo Ferreira, o empreendimento trouxe um novo caminho para os cinemas de Imperatriz, acompanhando tendências que ocorriam no resto do Brasil. Longe das ruas, aliou sua programação ao ambiente mais requintado do shopping. Produções eróticas, faroestes e filmes de artes marciais, comuns nas antigas salas de exibição da cidade, deram espaço para obras de Hollywood mais rentáveis dentro do sistema de distribuição. O conforto das cadeiras, climatização, e tecnologia de ponta também foram diferenciais.
Primeiros anos (1996-1999)
Segundo Vilson Ferreira, consultor político e empresarial, e, na época, administrador do Grupo Timbira, o primeiro filme exibido foi Evita (1996), estrelado pela cantora Madonna, e ocorreu antes da abertura oficial em um evento promovido pelo colunista Jonas Ribeiro, do jornal O Progresso. A projeção era feita utilizando o sistema analógico de películas de celuloide de 35mm.
Dois dias depois da inauguração, 10 de outubro, a exibição de estreia para o público geral foi de Independence Day (1996), que fez um sucesso bem-vindo, ficando dois meses em cartaz. E assim seguiram os primeiros anos do cinema, apresentando obras como Missão Impossível (1996), O Mundo Perdido: Jurassic Park (1997), Toy Story 2 (1999) e “os campeões de bilheteria”, como classifica Vilson, Matrix (1999) e principalmente Titanic (1997).
Daniel Sena, fotógrafo, e Renan Leal, professor e artista, frequentaram estes primeiros anos do cinema e lembram bem o sucesso de Titanic. Daniel enfatiza a aclamação mundial do filme e recorda com nostalgia: “Estava [eu e] a mãe da minha filha, a gente na época namorava. É um filme que foi altamente marcante pra mim.” Para Renan, o longa-metragem foi memorável justamente pelo seu desejo de assistir, mas não poder, por não ter idade o suficiente. Sua irmã, porém, pôde prestigiar a obra. “Ela me contou o filme do início ao fim, minha irmã era muito detalhista e eu me lembro de ficar imaginando”.

Renan se lembra também de sua primeira vez no Cine Timbira, quando assistiu ao filme O Noviço Rebelde (1997), estrelado por Renato Aragão e os cantores Sandy & Junior, dos quais Renan já era fã na época, e hoje realiza shows com covers das músicas da dupla. “Fiquei surpreso com o tamanho da ‘televisão’. Eu já sabia que era um telão muito grande, mas eu falava que era uma ‘televisão bem grandona’”, conta.
No seu auge, o cinema recebia um público de toda a região, como lembra o gerente da época, Van Eyck Franco Teixeira. “Pra você ter uma ideia, nós tínhamos clientes de Marabá, Estreito, Porto Franco, Grajaú, Barra do Corda...”. Van, atualmente representante de vendas em Palmas – TO, também destaca os equipamentos de ponta que faziam parte da estrutura do cinema, como o sistema de som digital DTS (Digital Theater System), que foi implementado de forma pioneira no Cine Timbira, sendo o primeiro da região Norte e Nordeste a possuir a tecnologia.
Erisvaldo da Silva, funcionário desde a abertura do shopping, e hoje colaborador da administração, enfatiza o sucesso do cinema nos anos 1990. “Veio uma sequência de filmes bons naquela época, muito bons. O proprietário não teve de que se queixar”. Também lembra o dia em que foi abordado na rua por um homem dizendo que o reconhecia da época que ia assistir filmes com atual esposa. “Eles se conheceram aqui no Cine Timbira, começaram a namorar e hoje casaram e têm filhos. Bonita a história”, relata com alegria.
Crises e mudanças (2000-2010)
Até a virada do século, o Cine Timbira foi bem frequentado, mas com a diminuição tanto do público quanto do interesse do proprietário, Hermenegildo Ferreira, em tocar o negócio, em 2000 o cinema passou por uma crise e foi para as mãos do gerente Van Eyck. Apesar da paixão do novo dono pelo ramo, o declínio continuou no decorrer da década.
Segundo a professora Nice Rejane (falecida em 2021) em sua dissertação de mestrado “Cinema e ensino de História na escola Graça Aranha em Imperatriz – MA”, um dos motivos para a queda nos números seria o aumento de popularidade dos DVDs e principalmente da pirataria, tanto em feiras pelas ruas quanto na internet, que durante os anos 2000 passou a ter conexões mais rápidas, assim facilitando o download ilegal de filmes.
Van Eyck relata sua ida a São Luís − MA em 2005 para adquirir o longa-metragem 2 Filhos de Francisco (2005), do qual esperava ser um “fôlego financeiro” para o Cine Timbira, porém “na hora que o filme chegou no Timbira Shopping, no estacionamento, o pessoal já tava vendendo o DVD pirata.”, lembra. O cinema e as locadoras de Imperatriz chegaram a montar uma associação para cobrar as autoridades sobre a pirataria na cidade, mas sem grandes resultados.
Além disso, naquele momento o cinema não conseguia fazer estreias ao mesmo tempo que no resto do Brasil, resultando em um atraso significativo para o público, como relata Renan Leal. “Até hoje quando o filme lança eu fico 'Ué, gente, mas já tá aqui em Imperatriz também?'. Até hoje eu tenho esse trauma achando que não vai chegar junto”, brinca.
Pelo fato de o Cine Timbira ter somente uma sala, aponta Erisvaldo, não valia a pena para as distribuidoras mandar o material em época certa, já que o espaço limitado não permitia uma programação variada. Van Eyck pontua também que os filmes vinham de Recife, e o custo para chegarem a tempo, de avião, era muito alto. “Muitas vezes a gente conseguia chegar com muita luta através de avião, mesmo pagando caro”, destaca.
Apesar das tentativas de Van Eyck de manter o empreendimento, Hermenegildo arrendou mais uma vez o Cine Timbira em 2008. Dessa vez, a posse foi para o empresário conhecido como Getúlio Vargas, dono da rede Cine Blue de Palmas − TO. Com a mudança, a logística para a chegada dos filmes era mais rápida e barata: vinham de ônibus da capital Tocantina. O local também passou por uma reforma, mudando a paleta de cores para azul, e atualizando toda a fachada. O público do cinema, porém, continuou decaindo por mais quatro anos até fechar.

Contudo, foi nessa fase de declínio que o jornalista, cinegrafista e documentarista Fernando Ralfer teve sua experiência mais memorável com o cinema. Em uma sessão quase vazia, assistiu Abraços Partidos (2009), do cineasta espanhol Pedro Almodóvar, do qual achou inusitada e bem-vinda a breve inclusão em uma programação repleta de filmes hollywoodianos. “Eu fui com um grupo de amigos, né? A gente adorava cinema. E as pessoas que a gente encontrou lá também gostavam de cinema”, lembra, sorrindo.
Apesar da memória, Fernando via o Cine Timbira/ Cine Blue como um espaço pouco convidativo, por ser dentro de um shopping. “Pra quem era dos bairros mais periféricos, não era uma coisa tão acessível assim, né?”. O cinegrafista tinha o Cinema no Teatro (projeto onde eram exibidas, gratuitamente, produções variadas toda segunda-feira no Teatro Ferreira Gullar) como seu principal meio de assistir filmes fora de casa. “Eu me sentia muito acolhido, muito confortável, e depois eu passei a fazer parte ali da curadoria [do projeto].”

O que sobrou (2011-2018)
Erisvaldo conta que, por haver somente uma sala no Cine Blue, o proprietário da época, Getúlio, resolveu fechar as portas em 2011, e migrar o empreendimento para o recém-inaugurado Tocantins Shopping. Com três salas, e sob o nome de ImperaCine, o novo espaço teve uma vida curta e veio à falência em 2015. Contudo, foi comprado pela administração do shopping e transformado no atual Cine Star.
Laecio Silva, projecionista do Cine Star, trabalha no ramo desde o Cine Blue e acompanhou as mudanças através dos anos. Conta que em 2011 ainda era usada a película de 35mm, e com o fechamento do cinema, as máquinas de projeção foram para o ImperaCine. Continuaram em operação até metade da década de 2010, quando só então foram trocadas pelo sistema digital DCP (Digital Cinema Package). Para Laecio, a mudança foi bem recebida, já que a operação das máquinas novas requer muito menos trabalho físico.

Para Fernando Ralfer, o fechamento do cinema foi triste como todo encerramento de espaços culturais, mas admite não ter sentido tanto. “Não foi uma coisa que representou uma ausência pra mim, assim, muito grande.” Já Daniel Sena lamenta o fim do Cine Blue e destaca a dificuldade que tem com mudanças. “Meu queridinho era o Timbira. Eu gostaria que até hoje estivesse funcionando com aquelas cadeirinhas velhinhas...”.
"Quem vai ao cinema sabe que não é só assistir ao filme, é uma magia que, para quem ama, não se apaga."
Van Eyck conta que seu primeiro emprego foi no Cine Timbira, e destaca a luta que travou para manter o empreendimento de pé durante seus oito anos de comando. “Os funcionários e colaboradores também foram fator principal para não deixar fechar, porque a paixão ficou no coração de cada um que trabalhou lá”. Para o ex-proprietário, a experiência não se resumiu a um simples serviço. “Quem vai ao cinema sabe que não é só assistir ao filme, é uma magia que, para quem ama, não se apaga.”
Apesar de fechar, a sala do Cine Timbira ficou disponível para outros usos, como o Espaço Cultura, iniciativa de Everton Pinheiro, que, entre outras atividades, voltou a exibir filmes no lugar, com projetor comum cedido pela administração do shopping,. Também ocorreram performances de grupos teatrais, como Okazajo, e shows de música, como é o caso da banda de rock Mortos, que participou de ensaios e festivais no local.
Após o longo período de uso ocasional, o espaço, que por 15 anos levou a Sétima Arte para a população de Imperatriz foi demolido em 2018 e, como relata Erisvaldo, restou apenas um objeto que até hoje se encontra guardado no deposito do Timbira Shopping: “Eu guardei, não deixei jogar fora nem vender. E a única coisa que eu fiquei do cinema foi isso: a tela.”
Esta matéria faz parte do projeto “Meu canto tem histórias”. Os (as) estudantes do primeiro semestre do curso de Jornalismo da Universidade Federal do Maranhão (UFMA), campus de Imperatriz, foram incentivados (as) a procurar ideias para matérias jornalísticas em seus próprios bairros, em Imperatriz, ou cidades de origem. O projeto é uma parceria interdisciplinar envolvendo Redação Jornalística (prof. Dr. Alexandre Zarate Maciel) e Laboratório de Produção de Texto I (LPT, profa. Camila Rodrigues Viana). Em 2026.1, contou com a colaboração, nas correções finais, da mestranda do Programa de Pós-Graduação em Letras (PPGLe), da Uemasul, Milena do Nascimento Silva, em estágio-docência.





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