Encontro entre tradição, miçangas e memórias
- 24 de jul.
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Centro Cultural realiza oficinas de artesanato e culinária indígena Guajajara
Amanda Nascimento
Hamandda Christhelly
Thaina Ramos
Vitória Elisabete
O Centro Cultural Tatajuba, localizado em Imperatriz (MA), cidade considerada o portal da Amazônia Legal, realizou, entre os dias 14 e 16 de abril de 2026, a Semana dos Povos Indígenas. O evento teve como objetivo promover a valorização e a preservação das culturas originárias por meio de oficinas formativas de artesanato com miçangas e culinária tradicional, ministradas por instrutoras da etnia Guajajara. Viabilizada pela Lei Rouanet, com patrocínio da Vale, a programação buscou quebrar estereótipos e aproximar a comunidade local dos saberes ancestrais, encerrando-se com uma celebração intercultural e certificação dos participantes.
Entre conversas e momentos de atenção, a oficina de artesanato promovida durante a Semana dos Povos Indígenas transformou o espaço em um ambiente de troca cultural, aprendizado e conexão com os saberes ancestrais. A aula foi ministrada pela artesã Bianca Guajajara e reuniu diversos alunos e alunas da região, divididos em grupo, em uma sala repleta de silêncio e concentração.
Ao longo dos três dias de programação, os participantes aprenderam técnicas tradicionais do artesanato indígena utilizando miçangas, fios e agulhas para produzir acessórios inspirados na cultura Guajajara. Todas as mulheres manuseavam o beiju e a linha com delicadeza, observando o molde na tela do celular, enquanto uma nova variação de cores aparecia em todos os cantos. No segundo dia, as meninas já demonstravam maior facilidade com o processo. As obras despontavam com o tear e logo identificava-se o desenho; naquela ocasião surgiram pássaros e onças de todo tipo de cor.

Além do aprendizado técnico, a atividade proporcionou uma verdadeira imersão cultural. Bianca Guajajara compartilhou histórias sobre o significado das peças, os símbolos presentes nos desenhos e a importância do artesanato para a preservação da identidade indígena. "Essa oficina está representando a minha cultura, está mostrando minha identidade, é por isso que eu tô aqui", afirmou a artesã.
Bianca contou que trabalha com artesanato desde os 11 anos de idade, quando aprendeu as técnicas com a mãe e outros parentes. Segundo ela, cada peça produzida carrega significados ligados à tradição de seu povo e também representa uma forma de resistência cultural e sustento financeiro.
Raquel da Silva, uma das participantes, viu na oficina uma oportunidade de aprender algo novo e entender mais profundamente o valor da arte dos povos originários. Ela afirmou que já tinha visto de forma superficial os acessórios indígenas, mas nunca havia tido contato direto com a produção artesanal. Para Raquel, a experiência permitiu enxergar o valor de cada peça. "Só conhecia, mas não sabia como era o manejo mesmo de fazer. Dei para conhecer na prática aqui", relatou.
A oficina também despertou nos participantes a importância da valorização cultural e do trabalho manual. Aprenderam, por meio da arte, a respirar pausadamente, seguindo o fluxo conforme os batimentos, agora tranquilos, do coração. Para muitos alunos, o evento foi mais do que uma atividade artística: tornou-se um espaço de convivência, troca de experiências e reconhecimento da identidade dos povos originários.
Culinária
O evento contou, ainda, com a oficina de culinária indígena, que teve Kerlany Guajajara, filha de Bianca, como instrutora. "Tá sendo incrível, surreal. Eu não só vim mostrar a culinária, mas a pintura e a tradição do meu povo", expressa. A ministrante destacou o uso de ingredientes tradicionais por meio do preparo de beiju com mel, mingau de abóbora com mel, mingau de inhame, bolo de milho e o processo da farinha de mandioca. "Tudo o que eu sei hoje é graças à minha mãe e à minha avó", pontua.
A sala gelada da estrutura do Tatajuba contrastava com o calor das risadas e conversas. As mulheres ali presentes transformavam cada pequena ação em um motivo para sorrir, refletindo entre si sobre os passos da receita, com os seus modos pessoais de preparo.
O prato apresentado, mingau de abóbora, causou espanto nas mais experientes, enquanto o cheiro do legume cozido carregava agora um novo sentimento. Elas se ajudavam em tudo, cuidavam dos objetos e alimentos. Na hora de provar, esperavam até todas terem suas colheres em mãos. A união do grupo foi o que tornou a oficina de culinária tão acolhedora.

Na oficina de culinária, Charlene Araújo Souza comentou que estava afastada de atividades externas há quatro anos para cuidar do marido com câncer. Participar da oficina, incentivada por sua mãe, trouxe uma nova perspectiva de vida e convívio social. "Quando eu vim para cá, me senti viva de novo. Sabe aquela sensação de saber que eu tenho utilidade?", afirmou.
Organização
Para a gerente executiva e coordenadora geral do Tatajuba, Mônica Brandão, a posição estratégica que a cidade ocupa no mapa brasileiro impõe a responsabilidade, de conectar a população urbana com a realidade dos descendentes dos povos originários que vivem na região. “Quando a gente fala da região amazônica, também está falando da área onde mais tem terras indígenas no Brasil”, afirma. Como principal polo urbano do sudoeste maranhense, Imperatriz mantém contato direto com diferentes comunidades. “Nós estamos, na verdade, muito próximos dos povos indígenas”, completa Mônica.
Embora muitos confundam com um espaço público, o Tatajuba é uma iniciativa privada voltada para gestão cultural. “São eventos pensados para valorizar os povos indígenas, a ancestralidade, a tradição e tudo que a cultura indígena tem”, explica Mônica. Na sua opinião, o contato presencial ajuda a romper visões superficiais sobre os primeiros habitantes da região. “A gente acaba criando um estereótipo só da internet. Aqui você conhece de verdade”, analisa.

Yasmin Silva, presidente do Tatajuba, reforçou o compromisso do instituto com a cultura. “Nossa programação é muito criada trazendo o regional, o que é nosso, o que é da nossa terra”, refletiu. A parceria com Bianca Guajajara, segundo informou, já existia, facilitando a realização das oficinas, que tiveram lotação máxima e engajamento total durante os três dias. "Todo mundo saiu feliz, contente por receber esse certificado". A arte presente nas duas formações deixou marcas permanentes em todas as partes envolvidas, e a celebração foi rica em cultura e respeito, desde a primeira aluna a entrar até a última a pegar o certificado.





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